25 February 2009

Burbuja

25 November 2008

the angel of the brigther day
























“De repente fiquei com medo de estar vivo, abri os olhos e tudo o que não vivi apareceu à minha frente a apontar-me uma arma. E já não havia tempo”.

Roy Batty - Blade Runner

06 May 2008























Tudo o que mais pedi é esperança
desde a brancura da infancia
entre sonhos formidáveis se erguendo do cristal
até a epifania das perguntas mais nobres, na revoada
antes do corpo erguido olhar pra trás,
antes da algazarra,
antes mesmo de pedir um pouco mais de paz.
Tudo o que mais pedi é esperança
pra vencer o tempo e seus sinais
se não fosse possível deter tudo
o que com ele traz e trouxe e trará.

Em tudo o que se fez sonhou a esperança.
Em tudo o que não se chegou a fazer sonhou,
como o mais sagrado dos segredos
que não chegou a se perder,
a esperança dos homens
e tudo mais o que existe,
só em nós.

11 April 2008

10 April 2008

Crystal Castles ---STUDIO FOOTAGE +++ NEW VIDEO PREVIEW

25 January 2008












Meditação sobre a ilusão


As atividades sexuais,
as terríveis máquinas de manipulação,
a gargalhada que zomba,
os sons crepitantes,
as aparições assombrosas,
São, na verdade, como todos os fenômenos,
ilusões, em sua própria natureza.
Embora visíveis, na verdade são irreais e falsas.
São como sonhos e fantasmas:
Não-permanentes, não-fixos.
Qual é a vantagem de se apegar a eles?
Ou de ter medo deles?
São todas alucinações da mente.
A própria mente não existe.
Então por que elas deveriam existir?
Para vagar confusamente
por essa existência
basta encarar essas ilusões
como sendo reais.
Tudo isso são como sonhos,
Como ecos,
Como cidades de nuvens,
Como miragens,
Como vultos no espelho,
Como visões fantasmagóricas,
Como a lua vista na água,
Não são reais nem por um momento.

>do blog sansara

15 December 2007

o que poderia ser é muito mais






















I.


Porque o possível está aqui entre todos e, se uns não podem ver, outros há que vêem mas não podem tornar possível, por causa daquilo, do impossível. Aquilo que é parte da coisa até, mas da consumação, da revelação. Ali violam-se todos os segredos, mas a natureza do segredo é ser segredo, o resto é pura violação. E onde e como diabos vivem aqueles que nunca parecem se importar com o que de vivo já nada mais parece haver? Não lhes afeta nem angustia um eterno cada vez menos? Não lhes dói que algo mostre por vezes poder ser a própria vida em pessoa, se esvaindo e desamparando tudo para sempre?

Aqueles são o impossível. Aqueles que parecem jamais poderem ou serem capazes de imaginar o que um simples espírito inocente e saudável seria capaz de fazer da vida, tivesse paz e esperança suficientes. Como uma criança quando ainda tem uma eternidade pela frente.

Eis aí um segredo e um exemplo que jamais poderia ter par, mesmo no mais mítico dos paraísos pela arte humana criados, a arte humana que é testemunhada, que é articulada. Porque dessa, o que chegou à tona de melhor até hoje e aí tomou forma, não tem ainda par nem comparação ao que poderia mas não chegou a tomar, nem vai. E ainda está lá, agora mesmo, protegido pra sempre da banalização. E é assim que a vida pode sempre infinitamente mais do que chega a ser, do que já foi, do que ainda chegará a ser, do que sempre se fez e faz dela, do que se poderia quando há paz e esperança suficientes e, sobretudo, quando ao menos há futuro o bastante.


II.


Ainda sobra um veneno no meu sangue, talvez porque nem o sangue nem o veneno sejam de fato isso: veneno e sangue. Porque na verdade não é propriamente no sangue que ainda ficou algo. E também o algo veneno é muito menos essa substância definida e ruim que simplesmente mata ou pode ser expurgada pelo corpo do que algo bem mais sutil. Pode ser que não se possa usar palavras como essas - sangue e veneno - quando o tema é algo como...a esperança, por exemplo. Então agora quando digo que sobra um veneno no meu sangue todos devem entender melhor o que eu quero dizer. Todos? É uma pena.

Ao invés de deuses ou razões que sempre parecem fazer troça da nossa inteligência e senso crítico, uma única coisa talvez devesse merecer ser sagrada nessa vida e, essa palavra mesmo: sagrada, dever então merecer significar algo por causa dessa única coisa: a esperança. Não fé, mas esperança. Claro. Tenho certeza disso. Mas infelizmente não se pode provar isso com palavras ordinárias, e com palavras algumas, muito menos essas poucas e diretas. Mas talvez o conceito de sagrado fosse exatamente isso: algo pra sempre protegido de palavras, uma espécie de enigma pra ser decifrado só quando merece ser, sendo esse merecimento mesmo um outro enigma. Isso dito alguém logo deve rugir, suponho: mas quem disse que deve existir isso de sagrado? Se deve, se não deve, ninguém pode decidir, mas uma coisa é certa: se fosse pra todos pensarem que não, melhor seria pro sagrado então morrer com o seu segredo, e fim de papo.

É uma pena. Seria, acho eu. Ainda posso imaginar toda uma vida, toda uma ciência, filosofia, toda uma estética até, uma psicologia ou antropologia ou seja lá o que fosse do mais complexo ao mais simples, cujo ponto de partida mais preciso pra resultar em humanidade seja uma certa idéia de esperança, pura e simples.



*

O umbigo da felicidade





Det sjunde inseglet (1957)

Antonius Block: Who are you?
Death: I am Death.
Antonius Block: Have you come for me?
Death: I have long walked by your side.
Antonius Block: So I have noticed.
Death: Are you ready?
Antonius Block: My body is ready, but I am not.


* * * * * * * * *


Nos dias em que tudo é adverso,
desapareces
e só vive o Universo.

Como se precisamente nada fosses, tu,
pessoa honrada
e vida mais não fosse que um regresso
ao esmo
e não fosse permitido apreendê-la ali tu mesmo
ainda que o fizesses mesmo à toa
ou para nada.


29 October 2007























Neque porro quisquam est qui
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There is no one who loves pain itself,
who seeks after it and wants to have it,
simply because it is pain..

09 September 2007

15 August 2007

no olho do furacão


















No olho do furacão
uma alma se compraz da paisagem Universal
como um primeiro olhar
e uma primeira língua-mãe.
E o rabo do olho - como bandeira desfraldada -
ziguezagueia na vertigem de capturar,
do cume do seu mastro vertical cravado na Origem,
o infinito desdobrado pela fuga das falésias.

E lá está o Todo -
vazão derradeira permanente
das partes ligadas uma a uma.

E aqui está o Homem,
inteiro,
cravado e através.

Maldita fuga.
Bendito olho.
Bendita língua.
Bendito Homem.
Bendita alma.

10 May 2007

herança























Quando ganhamos uma infância enorme,
para onde crescer?
Quando perdemos tudo o que nunca ganhamos, voltar,
para onde?

20 April 2007

essa encruzilhada
























Dois pedaços de um coração, assustados demais,
que brilharam através do vidro distante.
Duas imagens distorcidas por um vidro,
assustadas demais para abrirem os olhos e ver.
Ah...a paz...dormir...talvez sonhar...e nunca mais!
Quão longe pode estar partilhar mesmo destino!
Quão perto pode significar um abraço, sob um só sino,
para que não houvessem mais quaisquer distâncias?
Nunca saber...e eis talvez a paz.

Pois a cada distância uma ânsia, que me separa dali.
Em cada proximidade uma impossibilidade, que me separa dali.

Vão-se os assustados corações - cada pedaço -
por caminhos diferentes, cada qual com sua mágoa.
E a distância, esse remédio da mente, essa água,
revelando mais e mais a enfermidade e seu contrário,
que ao único coração não pertence nem o turva -
tão perdido no caminho "como lágrimas na chuva" -
o mantém desamparado em dois pedaços, sem idade,
numa espécie de sacrário, no meio da própria liberdade.

E Narciso... empertigado numa obra histórica vil e fria
destruindo cego um não sei que humano pouco a pouco
cada vez mais sem volta a cada dia
de quase tudo ri
como se nada mais fosse capaz de ver
ou de sentir.

18 April 2007

the answer and the question

01 March 2007

encadernado





















www.markryden.com

Sei que é a queda, e uma ascensão,
esse folhear dos dias como um livro.

Sou ardente pelas páginas afora,
curioso das linhas que podem ser lidas ou escritas.

Sou curioso e triste como o apressado que lê o fim da história.

Sou inocente como a criança
que vê amanhecer a primeira página,

ou o outro que não lê mas contempla as gravuras

montado num cavalo branco.


Sou maduro para traduzir, simples para contar lendas
e vergonhoso por não estar presente e sentado num certo jardim.

Sou um homem com um livro fechado sob o braço
a andar com os amigos como por um livro aberto.



26 February 2007

na impermanência celebrando com os amigos



















Atravesso sozinho pela impermanência de tudo

como se todos os amigos que caminham junto igualmente assim
celebrassem comigo tudo o que é celebrável
enquanto num horizonte distante um desejo nos espia
quase inacessível e único para cada solidão.

Há um amor em caminhar juntos não importa onde
nem em sob quais condições
e há um amor que permanece mistério
como se pudesse estar mais alto e fundo
do que toda vida dada e celebrada com o melhor de nós.

Não há inquietação, embora um desejo esteja tão inacessível
quanto o sol está do oceano
se fosse para caminhar na direção dele
pelo rastro que deixa do horizonte à praia.



12 July 2006

neve de fábula














Imaginem que ele era um...peixe.
A vida havia sido um Lago Lunar,
um aquário de peixos vivos e coloridos e constelares:
aquilo se moveu...
Lagos, são uma beleza acocorada nos olhos.
Peixes são artistas alados
que animam zodíacos renováveis.

O Lago Lunar: viu certa vez uma cascata piedosa,
movia-se, doía
e os peixes pingando as cores pelo caminho.
Eram outros peixes.
Da cascata, a beleza só brilhou com um poder de arte
concentrado nas lágrimas.
A Lua bebia o Lago até que ficasse branco-de-neve
e ficasse só ela pérola.
A piedosa cascata nem soube "para onde" os peixes
nem "porque". Só movia-se, doía,
e o próprio "como" era a cascata.
As cores dos peixes eram a voz da pérola branca.

A própria pérola sem "como" nem "porque" nem "para onde"
cantava cores, peixes, dores, cascata.
Cantava tudo, nem tinha boca: era pérola.
Era por isso que que o céu queria ser pérola, acho,
tinha boca só que era mudo.
Mas o peixe não: também não tinha boca
mas cantava dentro do pulmão da pérola,
dentro da cascata,
das cores,
dos peixes,
das dores,
de tudo: era o Sonho. Doía, nadava.
O sonho da pérola era ele, ela quase nada era.

Ele pensava: "A Lua é uma pérola bastante dura
mas canta nas janelas".
Perguntava: "Não sei como a Lua pinga, mas se
deixar de pingar ainda é pérola seca".
Dizia: "Pode ser que eu seja água de pérola, mas canto.
Nem tenho boca: secou. Mas canto!"

Era canto dentro da ostra, ele.
Não sei o que era a pérola, mas estava lá.
A Lua também.


*

alquimia













Quando cindiu-se nos primeiros amores difíceis o solitário espectro
e dos teus próprios olhos outros olhares te viram;
Quando olhos que te pertenciam te quiseram maldizer
e um inexistente engano recolhia rancoroso
aqueles leves tecidos do varal: as sedas, os cetins,
e Narciso amaldiçoava o lago espelhado
por vezes seguidas até se sumir,
desapareceste tu na chispante areia movediça que fervia
como um cisne ensangüentado e iracundo
a blasfemar litanias medonhas.

O imenso moinho aparecia...e a mó ignorou-te em sua marcha.

Depuraste no entanto tu a obscura jóia até à Lua, sem a ver,
mas mesmo assim com a precisão da geometria
ou talvez oracular: magia e poder da visão infantil.

Tudo fora expiado: os grãos, as pedras escuras,
o cal das conchas, o nervo-mestre.
Porque a poderosa hélice afiada dos justos
estrangulou raivosa, em sábios conselhos mas severos demais,
as férreas esporas diabólicas,
as facas arbitrárias que nunca quiseras ter,
as unhas necessárias, mas que cravavam no terreno à tua volta
antes de conheceres os mais delgados fios
da tua errante cabeleira emaranhada.

No selvagem treino, careca,
vias quaisquer vilezas serem caçadas pelas tribos dos pelados
no cerrado matagal de feras
e a negrura completa cerrar os cortinados da dor:
verde pálida e escura, doente.

No selvagem treino o holocausto te vencia sempre
o sangue sujo e despudorado, os castigos,
as línguas traidoras, os demônios ventríloquos,
os finais: mil vezes não mais voltar...

Depois...ceder ainda à sedução tácita dos fogachos?
Sim, se possível, ir,
mas sob a projeção que de ti desfias a fiar no duplo anel
pois se necessária é a velhice definhante e o último veredito,
o teu rastro particular é o tapete preferido da tua casa.

Agora a tingível pluma surgiu
quando arrefeceu a bruma fumegante,
a poeira da santa inquietação
e as maldições da tua deformação no vidro.

Surgira a tingível pluma
e foste tu também que a chamaste, sem o saber.
Era assim.

Agora, a Prata Lunar na palma aberta da terna mão
e o dedo a apontar os segredos e a mimesis,
o teu olhar, insolúvel,
faiscando sobre tudo como vara mágica.

O oráculo, era ele? Era ele que em ti se protegia?
pois que parecias fatalmente invisível e, sim,
sabias de são entendimento um tão simples postulado.

Não haveria maior vitória que a magia: vê-se tudo:
A beleza mais rara que os museus,
mais transparente que musas,
mais desconhecida que as idades já idas e porvir,
mais impossível que a Unidade,
mas viva.

17 May 2006

A PRAÇA PATÉTICA – uma paródia do fim do mundo (conto).

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Numa qualquer praça, principal, em pleno centro urbano de uma metrópole populosa e pasma, um mendigo, rompendo o bulício caótico de centenas de passantes que circulavam taciturnos de um para outro lado, subitamente escalou o patamar de um monumento central e atraiu a atenção de todos para uma enorme placa que trazia ao peito, pendurada ao pescoço, onde se podia ler, em letras bem acesas e graúdas, esta singular inscrição: “EU SOU DEUS, NOSSO SENHOR JESUS CRISTO”.
Momentaneamente mobilizados pelo anúncio atrevido e ameaçador – embora ingênuo – todos foram afluindo aos bocados para lá entre gracejos de surpresa e gargalhadas frouxas mas, vendo logo que as atenções haviam sido por completo furtadas pelo tão insignificante cidadão, alguns dos presentes começaram a se agitar, como se lhes houvesse acendido por dentro o estopim duma histeria qualquer. Até que um deles, perdendo a paciência e a pose (ou retomando uma impaciência recalcada pela pose), encorajado e não menos patético que o motivo da sua inquietação gritou: “É um farsante...eu sou Jesus Cristo!”.

A partir desse momento, muitos dos demais que ali estavam acompanhando todo o episódio bravejaram – cúmplices secretos da bizarra revelação – uns depois dos outros, outras tantas sentenças semelhantes tais como: “Não! Sei que eu é que o sou!”. “Eu sou Jesus, pois fiz tudo por amor”. “Sou eu, embusteiros, porque sei a Verdade! Não a revelei o tempo inteiro para evitar o vosso mal!”. “Cristo sou eu, garanto, o próprio Deus foi quem me disse em confidência!”. “Mentiras. Tudo isso não passa de mentiras ímpias, profanas! Sou eu! Eu, que sou puro e guardei isso só para esse instante definitivo, do qual deve depender toda a nossa futura salvação!”. “Sou eu! Eu que na vida só sofri e pouco mais tenho a dizer!”. “Eu!”. “Eu!”. “Humpf!”, etc.

Enquanto todos, sem se tocarem para não traírem as suas então confessadas convicções, discutiam entre si até chegarem a não menos bizarra conclusão de que todos, ao mesmo tempo e indistintamente, eram o “Salvador”, milhares, milhões de crianças, cheias de vida, energia, ira, vingança e deboche, irromperam de uma avenida em direção à praça, vestidas com fantasias de Herodes e Poncio Pilatos, armadas de cruzes e lanças nas mãos, com uma visível expressão de hecatombe.
Assim que se viram prestes a serem tragados e crucificados pelo terrível vagalhão infantil, um repente de desespero se apoderou de todos aqueles homens. Entre mútuas e vergonhosas delações, confidências, covardias e gritos de: “Na verdade, sou Judas!”, zarparam todos numa fuga desenfreada, de rumo incerto, precipitando-se pelas ruelas laterais e logo evaporando um a um no horizonte truncado dos confins urbanos. Apenas ficara, novamente só, o mendigo, herói patético e mártir anônimo daquela comédia bizarra. Ele, como que convicto do que a si próprio parecia se propor ou se cria destinado, no preciso instante em que o grupo dos homens e o grupo das crianças iriam se encontrar em torno à praça, executou a si próprio sem que absolutamente ninguém se tenha dado conta dele, enquanto balbuciava essas palavras: “O que é verdadeiramente Sagrado jamais surgirá aos olhos do mundo”.

Desfeito alguns longos minutos depois o momentâneo rebuliço, tudo silenciou.
Então, as crianças se deteram, olharam umas para as outras com perplexidade e ironia, como se dando conta de que haviam de alguma forma estranha sido joguetes de algo que estivesse fora do alcance delas - como o Tempo ou a História, tiraram as fantasias e, se apropriando de tudo o que encontravam ao seu alcance, promoveram um festim memorável e infantil em todos os sentidos, mas que terminou numa completa catástrofe.

Nesse mesmo momento, o Demônio, na sua toalete privada, fazia caretas defronte ao espelho vestido de Arlequim.

29 April 2006

legenda lírica










Quando o estio afugentou a Primavera
um enorme rochedo surgiu em meio a um dia de verão.
O sol estava a pino no céu, sobre a minha cabeça
e eu não pude refrescar-me sob a minha própria sombra.

Era meio-dia, no deserto.

Subi ao cimo do rochedo
e guardei o meu amor numa lágrima sincera
depois de contemplar a harmonia da canção
e a cauda imensa de uma grande injustiça.

Quando desci do rochedo
a terra havia se tornado tenra e dócil
e havia um punhado de sementes no meu bolso
a espera da nova Primavera.

28 March 2006

não sou um porto

















Não sou um porto,
nem o lar pr'onde se volta de viajar,
nem o mar morto,
pois vivos caminham lado a lado,
os amantes.
Um amor não há-de ser um esquecer/lembrar
nem caminhar na estrada caprichosa, como antes,
polvorosa frouxa e insular
de manter-se no egoísmo do inviolado.

Não vás lembrar de mim quando eu te falte apenas
porque antes te faltou isso ou aquilo.
Não vás contar com o que de ti mal move o cílio
porque me julgues na espera assegurado.

Um amor tampouco é o mero apego,
restando do céu só uma estrela, duvidosa.
Um amor não há-de ser só espinho ou rosa,
mas ambos num povoado firmamento -
fermento que me infla quando chego.

Sempre há-de resultar vã a oferta
se a procura alimenta tantos alvos
quantos forem os arcos e as setas
que indistinguem para si o fácil e o caro.
Ao arco só soma o que do alvo é raro
pra mais versátil se tornar a pior seta.

Lindeza imaginar que um sonho livre -
manhã que premiou o dia após trevoso e terno,
guardado o que só cabe ao mais honroso elmo -
transpôs o secundário...e ainda vive.

23 March 2006

the eternity of the memory


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She looks the first man,
she loves him.
The blind man falls, in crowd.
Time's memory screams and,
in the lost earth,
the first man calling
and never knows.

Look at first man's eyes,
without fear,
on the floor, almost floor, still floor
with a sky.

sentado numa praia grega, depois do naufrágio



Pudera em alto mar que uma imprevista sístole celestial,
na nata universal desfechasse um rodopio completo,
e não mais ao abismo atroz e sombrio de sua sorte
um homem se visse irresistívelmente atraído,
mas às harpas cetinosas dos encantos,
só por sonho de sumir em bela morte,
depois de ter vivido.

noturno



Da noite,
o que se bebe são estrelas brancas e azuis,
grinaldas inteiras delas, cometas, a Lua.

Eu bebo do néctar lunar quando canto,
das melodiosas musas,
do leite materno e branco.

Eu bebo direto do Sol
quando falo sem beleza.
É que o Sol, severo e cego de fusco,
inveja a alva pele da pureza
e diz, embriagado:
- Para a noite! Eis meus dardos!

red hot chilli olive



















Conseguiste penetrar numa bola de cristal,
depois da catástrofe?
Miragens do inefável incêndio emudeceram nas lonjuras
e o trampolim das maravilhosas pinturas reais
estendeu uma mão acolhedora, singrada de preciosos anéis,
e um abraço encantado e santo.

E não irás mais amaldiçoar a Vida,
pois agora és um Mago.
A madeira ainda estala nos bosques da tua primeira bem-aventurança.
Nas manhãs não vai deixar de te sobreviver,
como numa primeira pronúncia,
o agora já sabido sopro singular.



*